Se cuida!

Véspera de natal. Livraria da Travessa lotada. Uma bossa nova light de trilha sonora tentava dar um clima mais ameno. Contudo, continua sendo uma livraria então a situação não era tão grave assim. Passeio os olhos pelas estantes, os mais vendidos, os menos vendidos, os escondidos, os expostos. Livros de arte que acho que nunca poderei comprar. Ou pelo menos nunca na quantidade que eu gostaria.  E vi a capa rosa brilhante do novo livro da Sophie Calle.  Pelo jeito ela finalmente caiu nas graças dos editores ou do público mesmo daqui. Lembro-me anos atrás numa minguada comunidade do orkut, pessoas desesperadas por algum livro dela aqui no Brasil. E eu também lamentei na época.  Não me lembro mais como a conheci, mas acho que foi sempre essa relação virtual. Li algo sobre como ela havia inspirado um personagem em um livro do Paul Auster e fui fuçando aqui e ali. Sempre me interessou muito conceitualmente seu trabalho. A possibilidade de se incluir, de transformar sua própria vida em seu trabalho, expondo em carne viva ou em uma egotrip suas dúvidas, frustações, desejos ou pés na bunda.

Depois de quase me deprimir com o módico precinho de três sete oito. Assim a vendedora falou, acho que com certo pudor. Não conseguiu dizer trezentos setenta e oito, disse 3 – 7 – 8.  Não é para o meu bico, pensei.

Nada disso. Peguei o livro, fui para o fundo da loja e havia uma poltrona vazia e fiquei um tempão saboreando aquelas páginas.

Prenez Soin de Vous é um jogo catártico disparado por um email de ruptura recebido por ela mesma e analisado, interpretado, traduzido, cantando, dançado, etc etc por 107 mulheres diferentes. Apesar de ter achado a proposta e o resultado bem interessantes, fiquei pensando no título, que é a última frase do email: Se cuida!

E lembro que escrevi uma vez sobre isso, parafraseando uma amiga que diz que quando um cara te diz “se cuida” é porque ele definitvamente não vai cuidar de você. E essa frase que parece ser tão cuidadosa, no final das contas esconde mais um sinal de nossos tempos: cada um por si e deus por todos.

Então aí fica uma dica de um bom presente de natal com o espírito natalino da fraternidade humana hehehe.

Uns dias chove, noutros dias bate sol

E a coisa aqui não está preta, mas realmente meus ânimos parecem variar com o sentido do vento. Bate pra lá, animada, bate pra cá, desanimada.

Eu sei que à raíz de tudo isso está a minha alta exigência com tudo, com a vida, comigo mesma, com o meu entorno. O tal inconformismo, que me move, mas às vezes também me paraliza.

Nos últimos dias me bateu aquela ressaca da crise dos 30 e… “poxa, quando vou começar a colher os frutos do que plantei ?”

E mais uma vez me questiono se o caminho certo é o que eu fui tomando. Fico na dúvida se este é o momento de insistir ou desistir. Ó, dúvida cruel! Serão estas dificuldades provações ou mensagens de que tenho que mudar o caminho? Nunca sei ao certo. E sei que escrever é um processo muito solitário e eu acho que preciso muito de diálogo, de gente e, pasmem (!) de aprovação.

É difícil assumir isso, mas depois do bode foi a minha conclusão. Não tenho a segurança necessária sobre o meu trabalho para não precisar de aprovação.

Ufa!

Falei e já me sinto mais leve.

E ontem lamentei não ter uma câmera para fotografar meu filho e seu amigo do peito fazendo travessuras na pracinha que culminaram com os dois tomando banho de roupa nas mangueirinhas que molhavam o gramado. Fazia um calor infernal e depois me senti como se eu tivesse feito a travessura, porque chegou a mãe do amiguinho e eu tive que entregar o moleque encharcado dos pés à cabeça. Mas realmente não há nada que provoque mais paz no coração do que ver seu filho lindo, rindo, feliz.

Das relações…este assunto infindável

Eu tenho que confessar que acabei de me sentir culpada quando entrei neste blog e vi havia tido visitas nos últimos dias, semanas. Quando eu mesma não dei as caras, muito menos escrevi.

Eu, enquanto geminana (amadurecida, mas sempre geminiana), sabia que ter esse blog sem um foco específico podia dar nisso: dispersão, inconstância, inconclusão. Eu tentei até fazer uma coisa meio anônima (ha ha ha), mas tenho um sério problema com a ficção totalmente fantasiosa. Não consigo.

E pensei que, de certa forma, eu sempre termino falando sobre relações.  Juro que até pensei em abrir um blog de consultório emocional. Podem rir, mas é que eu acho, modestia à parte, que sou boa conselheira. A gente sabe que se conselho fosse bom se vendia. Mas pera aí! Por que vocês acham que Paulo Coelho e seus genéricos estão cheios da grana? Com todo respeito ao imortal-ex-porraloca.

No meio destas divagações me lembrei também que a alegria e a felicididade em geral são muito pouco inspiradoras para escrever. Olho as minhas mensagens de texto no celular e realmente é algo muito inspirador para a vida, mas pouco para a literatura (ainda que pseudo, sub, descompromissada). E não é à toa que na literatura e no cinema em geral a gente vê tudo que vem antes do “viver felizes para sempre”. Claro que essa idéia de conto de fadas + comercial de margarina não existe realmente, mas em geral a felicidade é algo que se persegue ou se vive. Escrever sobre ela é meio entendiante. Eu sempre digo que prefiro ter uma vida maravilhosa e uma obra medíocre do que ser uma gênia angustiada.

E o fato é que ando muito feliz.  Às vezes tenho medo de que se termine, de sofrer um golpe do destino, que meu amor saia para comprar cigarros e não volte e uma série infindável de pequenas neuras mais ou menos criativas. Fora isso, tudo na mais perfeita desordem, mas com a alma tranquila.

E tenho pensado muito em uma frase que ando dizendo a quem vem me pedir conselho: outro mundo é possível.

Isso quer dizer o seguinte: é possível ter uma relação saudável e madura. É possível conviver com uma pessoa que é diferente de você, mas afim nas coisas realmente importantes. É possível sentir tranquilidade sem tédio. É possível estar com uma pessoa que você admira e que te admira e que ambos se ajudem, acompanhem e não se anulem. É possível ser sincero sem ferir. É possível se adaptar à convivência sem fazer concessões que vão te matando pouco a pouco por dentro. É possível construir uma relação na base do companheirismo e amor, com respeito e sem brigas. É possível aprender e ensinar sem perder os projetos pessoais. É possível encontrar uma pessoa perfeita para você e viver uma relação que você já não acreditava que podia viver. Sei que perfeito soa pesado, mas uso essa palavra porque é a mais próxima da idéia que quero passar. É isso aí! Eu sei que outro mundo é possível. Sei que só reconheço isso porque vivi 33 anos de busca, erros, acertos, dores, alegrias, surpresas, decepções e, sobretudo, inconformismo, porque acho que no fundo eu sabia que outro mundo era possível. Não sei se no mundo realmente, mas nas relações, sim.

Google de bêbado não tinha dono, mas agora tem

Os caras do google são foda, segundo uma amiga, “unos cabrones que van de progre y controlan toda la información”.  Se são ou não são cabrones, não sei. Provavelmente sim.  Sei que eu adoraria trabalhar na Google, se é realmente aquilo que circula nos emails. É verdade que dá um pouco de medinho essa dependência que o mundo inteiro tem do google ( eu suponho que o mundo inteiro, mas pode ser uma visão etnerdcêntrica minha). Lembro que uma vez o google ficou fora do ar numa empresa que eu trabalhava e por um momento acharam que era uma resolução do administrador de rede, etc, essas coisas de empresa grande. Bom, digo que foi um desepero geral, quase fizeram um motim no setor de informática, um reboliço nos corredores, teorias conspiratórias, até que se esclareceu que era um problema temporário do google. Ufa, respiramos aliviados.

Uma vez, nos longínquos (ha ha ha) idos de solteira vagante por aí, depois de uma night, digamos, hmmm, bastante íntima com um sujeito, o encontro no dia seguinte. Aquela situação clássica, como você se comporta quando encontra sem combinar com um sujeito que você teve um contato imediato do 5o ou 6o grau na noite anterior, mas mal conhece? Agir com naturalidade, manda a etiqueta destes tempos, como se nada tivesse acontecido, mas com um sorriso e um olhar levemente 43 do tipo (cá entre nós, eu e você sabemos que aconteceu algo). That´s it. Qual a minha surpresa quando o sujeito me confessa, na sobriedade do day after: “menina, coloquei você no google, que interessante tal coisa que vc fez !”

E eu pensei: gente, esse cara está traindo o código de ética intergalático do voyeurismo internacional que a internet propicia. Todo mundo sabe, você bota no google, fuça orkut, lê o muro do facebook, mas não confessa jamaissssss.

A última dos caras é um invento de tirar o chapéu. Realmente incrível. Um filtro para drink and email.

Já soube que teve gente que não conseguiu resolver as equações matemáticas nem sóbria, mas há de se admitir que é genial.

Como quando se trata de avanços tecnológicos nego nunca está satisfeito, depois que repassei o email entre drink and emailers potenciais, recebi uma respostinha “falta ter um negócio desse para celular”. É verdade, mas quero acreditar que estamos caminhando para isso.

http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL789185-6174,00-GMAIL+CRIA+FILTRO+PARA+PROTEGER+INTERNAUTA+BEBADO+DE+SI+MESMO.html

por fim, um post até o final

Ultimamente ando tendo dificuldade para escrever. Já comecei 75 posts que guardei e nunca terminei. Acho que é geminianismo agudo. Ou aquele excesso de crítica paralizante que está me acometendo no momento.

Os últimos tempos têm sido de pensar e repensar muitas coisas. Tudo ao mesmo tempo. Todos os aspectos da vida.  E é difícil separar o joio do trigo dos pensamentos. O que é punheta mental e o que realmente importa. Talvez tenha a ver com meus 33 anos. Fico pensando que talvez já seja a hora de colher frutos em várias áreas. Passo a mão na minha própria cabeça e me digo que o fruto mais importante está grande, lindo, feliz e saudável. Sou um pouco condescendente comigo mesma e lembro que estou recomeçando em um país novo pela segunda vez. Me olho com ternura e digo: mas também, você quer trabalhar com cultura, com arte, com educação….essas coisas não dão estabilidade nunca….

Não sei se estou buscando estabilidade. Acho que nunca busquei estabilidade. Mas agora sinto que meu filho precisa e não sei como chegar a esta estabilidade sem me apagar.

E além disso ando um tanto desanimada com a idéia de precisar da aprovação de outros para fazer o seu trabalho. E fazer cinema é basicamente isso. E é um saco.

Mas enfim, talvez eu esteja simplesmente querendo ficar quieta, no meu ninho com meus amores.

E eu que não conseguia acreditar nesse papo de estar com alguém “para sempre”, agora faz todo sentido. E é tão calmo e claro. Talvez seja a idade. Ou o amor. Ou os dois.

jogo é jogo, treino é treino

eu sei que felicidade demais incomoda. Vou correr o risco de ser uma mala, porque ando cantarolando que nem a noviça rebelde pelos cantos. Caimbra de maxilar parece algo surreal, né? Mas até isso eu tive. Por não estar acostumada a um sorriso constante e bobo no rosto. É sério. A musculatura facial se ressente. O maxilar pressiona as maçãs do rosto e dá uma espécie de dor de cabeça. Um pouco incômoda, mas recomendo.

E do auge desta alegria contagiante, posso ver a mim mesma pouco tempo antes. Eu que estava a ponto de mudar de calçada quando via uma flor. E me reconheço aqui e ali. E converso com minhas amigas e tento dar um conselho esperançoso. Tento me lembrar da generosidade e paciência que temos que ter com nós mesmas e com os outros enquanto a gente vai se esbarrando por aí. Essa coisa da nossa geração, arrisco, de ficar jogando com o time reserva.

Se as relações fossem jogos de futebol, eu diria que a gente se acostuma a jogar muito mais com o time reserva. Essa coisa de poupar o melhor de si para quando venha um campeonato mais importante. E o tal campeonato importante nunca acontece, porque ninguém tá com o time titular, ora pois!

Então de repente, sem saber muito bem como explicar, eu estou lá com o meu dreamteam, ressucitando o Garrincha, o Pelé e dando um banho de futebol arte. Com fairplay, sem doping, os 11 daqui e os 11 de lá com tudo em campo. Corpo, alma, emoções, palavras, gestos pequenos e grandes. E, caramba, tudo bem que é arriscado colocar o seu melhor em campo, mas não tem comparação.

E a torcida vibra!!! O maraca vem abaixo!!!

Caramba, o que será que me deu?

El cobrador

Eu já disse que aqui no Uruguay existe essa figura do cobrador, né? A dinâmica é bem simples, de uma tecnologia ancestral eu diria. El cobrador passa e deixa um papel embaixo da porta avisando os dias em que passará para cobrar o condomínio. Ele passa dois dias, dando mais oportunidade de vc não ser pego de surpresa (ops). El cobrador passou na segunda e eu não tinha o dinheiro para pagar. Disse que passaria na quarta. Combinado. Na noite anterior acabei não me animando a sair diante do frio monstro, então não pude tirar o dinheiro do caixa eletrônico. Coloquei o alarme para me lembrar de sair de manhã e ir tirar dinheiro antes que el cobrador chegasse. Sonhei que o cobrador passava e eu não tinha o dinheiro. Comentei com minha cara metade. Rimos. Achamos que a lei de Murphy faria com que el cobrador passasse justamente quando eu estava fora. Ensaiamos uma desculpa. Talvez ele pudesse oferecer um cházinho ao cobrador enquanto eu voltava com a grana. Ele respirou aliviado quando eu cheguei. Tudo certo. E esquecemos a sombra do cobrador. E há coisas muito mais interessantes para se fazer em uma manhã fria quando você está bem acompanhada, se é que me entendem.

E enquanto explorávamos estas coisas interessantes que as manhãs frias oferecem quando se está bem acompanhada a campainha toca. Um salto de susto. Um segundo de pausa dramática e em uníssono: el cobrador!

E lá fui eu, com aquela cara de quem tem coisas mais importantes para fazer numa manhã fria quando se está bem acompanhada e saldei minha dívida com el cobrador.

strawberry fields forever

Estar amando é um pouco como estar grávida. Estar prenha de vida. Estar com a felicidade instalada fisicamente em um lugar do seu corpo. Você pode sentir. De vez em quando as lembraças vêm e te dão suaves chutinhos no estômago. É uma sensação agradável, reconfortante.

De repente todos os caminhos fazem sentido. Tudo parece um grande quebra cabeças que vai se montando. as peças que pareciam que nunca se encaixariam de repente encontram seu lugar.

Como começar uma nova história de amor trazendo sua história e não os seus fantamas?

Isso é o que estou tentando colocar em prática. Embora eu esteja tomada por essa sensação de onipotência que estar prenhe de amor te dá, ainda busco a melhor maneira de amadurecer sin perder la ternura jamás.

Mas a verdade é que eu sinto que posso tudo. Sinto que a vida é maravilhosa e linda e justa e os strawberry fields crescem na sala da minha casa. Na verdade eles me acompanham por onde vou, como uma propaganda de impulse. E, de repente, o vizinho chega na mesma hora que eu e carrega a mala pesadíssima e o motorista de taxi faz questão de sair do carro para me ajudar a carregar as compras. No supermercado, um cara faz um air karaoke com uma lata de ervilha ao som de born to be wild, que sai em versão enlatada das caixas de som. O amigo morre de rir. Eu morro de rir. Em instantes há uma comunhão não explícita entre nós.

O sol entra contundente e brilhante pela janela da sala. Será que eu sabia que esse mesmo sol iria aquecer nossos corpos generosamente, como se já nao bastasse tanta alegria?

Que me perdoem os que estão tristes, os que estão sofrendo, os que estão passando pelas agruras da vida. Que me perdoem os descrentes, os desenganados, os amargurados. Os sem teto, sem alma, sem abraço, sem calor. Que me perdoe eu mesma de outras histórias e outros momentos. Que eu possa acreditar, aceitar e viver o que estou vivendo agora.

Amigo Imaginário ou generation gap

Lembra quando você era adolescente e seu pai ou sua mãe – adultos totalmente por fora, lógico – falavam alguma coisa absurda, como por exemplo “Lobão e o seus Reinaldos” e você ficava rindo com seus amigos que do como eles estavam por fora.

O mundo dá voltas.

Outro dia estava o pequeno marrento de 7 anos de idade me comentando sobre um desenho animado “Mansão Foster para Amigos Imaginários”, quando se lembrou que ele também tinha um amigo imaginário. Eu também lembrava, o Dino, claro. E lhe disse como fazia tempo que ele não conversava com o Dino. Foi aí que veio a grande revelação. “Você sabia que o Dino era um pokemon?”

Tcharan!! Me lembrei que o Dino mudava de forma, às vezes era bebê, às vezes era grandão. Às vezes era um monstro bonzinho que protegia ele e às vezes cabia na mão para ele brincar e levar com ele.

Então eu disse, me fazendo a suuuuper entendida: “claro, porque ele se transformava, né?”

Nesse momento ele se joga no chão (performático, ele) rindo sem som e mexendo com a cabeça com um olhar de “pobrezinha, não entende nada”.

Eu perguntei se tinha dito alguma besteira. E ele: “claro. O pokemón não se transforma, ele EVOLUCIONA!”

Aguardiente

Um ano depois. Uma equipe de amigos de 5 nacionalidades diferentes. Milhares de quilômetros percorridos pelas minúsculas e poderosas fitinhas HDV. Finalmente finalizei hoje o curta Aguardiente.

Em breve colocarei no youtube a versão final.

Uma sensação ótima de dever cumprido. Bom, a brincadeira está apenas começando.

Gracias a todos. Um brinde!

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