jogo é jogo, treino é treino

eu sei que felicidade demais incomoda. Vou correr o risco de ser uma mala, porque ando cantarolando que nem a noviça rebelde pelos cantos. Caimbra de maxilar parece algo surreal, né? Mas até isso eu tive. Por não estar acostumada a um sorriso constante e bobo no rosto. É sério. A musculatura facial se ressente. O maxilar pressiona as maçãs do rosto e dá uma espécie de dor de cabeça. Um pouco incômoda, mas recomendo.

E do auge desta alegria contagiante, posso ver a mim mesma pouco tempo antes. Eu que estava a ponto de mudar de calçada quando via uma flor. E me reconheço aqui e ali. E converso com minhas amigas e tento dar um conselho esperançoso. Tento me lembrar da generosidade e paciência que temos que ter com nós mesmas e com os outros enquanto a gente vai se esbarrando por aí. Essa coisa da nossa geração, arrisco, de ficar jogando com o time reserva.

Se as relações fossem jogos de futebol, eu diria que a gente se acostuma a jogar muito mais com o time reserva. Essa coisa de poupar o melhor de si para quando venha um campeonato mais importante. E o tal campeonato importante nunca acontece, porque ninguém tá com o time titular, ora pois!

Então de repente, sem saber muito bem como explicar, eu estou lá com o meu dreamteam, ressucitando o Garrincha, o Pelé e dando um banho de futebol arte. Com fairplay, sem doping, os 11 daqui e os 11 de lá com tudo em campo. Corpo, alma, emoções, palavras, gestos pequenos e grandes. E, caramba, tudo bem que é arriscado colocar o seu melhor em campo, mas não tem comparação.

E a torcida vibra!!! O maraca vem abaixo!!!

Caramba, o que será que me deu?

El cobrador

Eu já disse que aqui no Uruguay existe essa figura do cobrador, né? A dinâmica é bem simples, de uma tecnologia ancestral eu diria. El cobrador passa e deixa um papel embaixo da porta avisando os dias em que passará para cobrar o condomínio. Ele passa dois dias, dando mais oportunidade de vc não ser pego de surpresa (ops). El cobrador passou na segunda e eu não tinha o dinheiro para pagar. Disse que passaria na quarta. Combinado. Na noite anterior acabei não me animando a sair diante do frio monstro, então não pude tirar o dinheiro do caixa eletrônico. Coloquei o alarme para me lembrar de sair de manhã e ir tirar dinheiro antes que el cobrador chegasse. Sonhei que o cobrador passava e eu não tinha o dinheiro. Comentei com minha cara metade. Rimos. Achamos que a lei de Murphy faria com que el cobrador passasse justamente quando eu estava fora. Ensaiamos uma desculpa. Talvez ele pudesse oferecer um cházinho ao cobrador enquanto eu voltava com a grana. Ele respirou aliviado quando eu cheguei. Tudo certo. E esquecemos a sombra do cobrador. E há coisas muito mais interessantes para se fazer em uma manhã fria quando você está bem acompanhada, se é que me entendem.

E enquanto explorávamos estas coisas interessantes que as manhãs frias oferecem quando se está bem acompanhada a campainha toca. Um salto de susto. Um segundo de pausa dramática e em uníssono: el cobrador!

E lá fui eu, com aquela cara de quem tem coisas mais importantes para fazer numa manhã fria quando se está bem acompanhada e saldei minha dívida com el cobrador.

strawberry fields forever

Estar amando é um pouco como estar grávida. Estar prenha de vida. Estar com a felicidade instalada fisicamente em um lugar do seu corpo. Você pode sentir. De vez em quando as lembraças vêm e te dão suaves chutinhos no estômago. É uma sensação agradável, reconfortante.

De repente todos os caminhos fazem sentido. Tudo parece um grande quebra cabeças que vai se montando. as peças que pareciam que nunca se encaixariam de repente encontram seu lugar.

Como começar uma nova história de amor trazendo sua história e não os seus fantamas?

Isso é o que estou tentando colocar em prática. Embora eu esteja tomada por essa sensação de onipotência que estar prenhe de amor te dá, ainda busco a melhor maneira de amadurecer sin perder la ternura jamás.

Mas a verdade é que eu sinto que posso tudo. Sinto que a vida é maravilhosa e linda e justa e os strawberry fields crescem na sala da minha casa. Na verdade eles me acompanham por onde vou, como uma propaganda de impulse. E, de repente, o vizinho chega na mesma hora que eu e carrega a mala pesadíssima e o motorista de taxi faz questão de sair do carro para me ajudar a carregar as compras. No supermercado, um cara faz um air karaoke com uma lata de ervilha ao som de born to be wild, que sai em versão enlatada das caixas de som. O amigo morre de rir. Eu morro de rir. Em instantes há uma comunhão não explícita entre nós.

O sol entra contundente e brilhante pela janela da sala. Será que eu sabia que esse mesmo sol iria aquecer nossos corpos generosamente, como se já nao bastasse tanta alegria?

Que me perdoem os que estão tristes, os que estão sofrendo, os que estão passando pelas agruras da vida. Que me perdoem os descrentes, os desenganados, os amargurados. Os sem teto, sem alma, sem abraço, sem calor. Que me perdoe eu mesma de outras histórias e outros momentos. Que eu possa acreditar, aceitar e viver o que estou vivendo agora.

Amigo Imaginário ou generation gap

Lembra quando você era adolescente e seu pai ou sua mãe - adultos totalmente por fora, lógico - falavam alguma coisa absurda, como por exemplo “Lobão e o seus Reinaldos” e você ficava rindo com seus amigos que do como eles estavam por fora.

O mundo dá voltas.

Outro dia estava o pequeno marrento de 7 anos de idade me comentando sobre um desenho animado “Mansão Foster para Amigos Imaginários”, quando se lembrou que ele também tinha um amigo imaginário. Eu também lembrava, o Dino, claro. E lhe disse como fazia tempo que ele não conversava com o Dino. Foi aí que veio a grande revelação. “Você sabia que o Dino era um pokemon?”

Tcharan!! Me lembrei que o Dino mudava de forma, às vezes era bebê, às vezes era grandão. Às vezes era um monstro bonzinho que protegia ele e às vezes cabia na mão para ele brincar e levar com ele.

Então eu disse, me fazendo a suuuuper entendida: “claro, porque ele se transformava, né?”

Nesse momento ele se joga no chão (performático, ele) rindo sem som e mexendo com a cabeça com um olhar de “pobrezinha, não entende nada”.

Eu perguntei se tinha dito alguma besteira. E ele: “claro. O pokemón não se transforma, ele EVOLUCIONA!”

Aguardiente

Um ano depois. Uma equipe de amigos de 5 nacionalidades diferentes. Milhares de quilômetros percorridos pelas minúsculas e poderosas fitinhas HDV. Finalmente finalizei hoje o curta Aguardiente.

Em breve colocarei no youtube a versão final.

Uma sensação ótima de dever cumprido. Bom, a brincadeira está apenas começando.

Gracias a todos. Um brinde!

Outro mundo é possível

“Mamiiiiiiiii! Já lavei e sequei o calconcillooooo!” E me entregou todo orgulhoso a sua cueca limpinha.

Eu me derreti. É isso mesmo. O meu filho, além de inteligente, simpático, gente boa pra caramba, engraçado, carinhoso e esperto, ainda lava a própria cueca. Isso aí. Outro mundo é possível.

Drink and Dial

Que atire a primeira pedra quem nunca tomou umas a mais e passou a mão no telefone, no celular, email, msn ou similar, sujeita a uma ressaca dupla no dia seguinte. Com o aumento da variedade de formas de comunicação, cada vez mais instantâneas e acessíveis as possibilidades das bêbadas ocasionais meterem esse pé na jaca é ainda maior. O mundo está cada dia mais perigoso, já sabemos.

O alvo normalmente são aqueles ex mal resolvidos, ou “peguetes”, só para criar uma categoria para aquelas relações amorfas. Algumas ligações dessas bêbadas trazem à tona questões transcendentais como : o que é que ela tem que eu não tenho? ou por que nós terminamos mesmo? No caso dos ex até que o estrago não é tão grande. Já passou mesmo. No final das contas acaba sendo mais uma chutada em cachorro morto. No caso daquelas relações em que há, digamos, proximidade física e quase nenhuma intimidade, fica um pouco mais complicado. De repente todo o tempo você está agindo como uma boa mulher pós moderna bem resolvida, que não acredita em príncipe encantado e também não se ilude nem se chateia tanto se o sujeito liga ou não liga. Você é a reencarnação da sobrinha do dalai lama, calma, centrada, deixndo tudo fluir. Tudo isso desaba com aquele telefonema de voz arrastada com declarações sinceras e questionamentos que não têm lugar naquela história onde ninguém entrou com o coração. Inclusive já me questionei se são piores as ligações - que a memória seletiva se encarrega de deletar - ou torpedos que ficam gravados e podem ser lidos à luz de toda sobriedade.

Mas enfim, como já dizia Cartola, o mundo é um moinho. E hoje eu fui acordada às 6 da manhã por um telefonema com voz arrastada falando em portunhol.

Ha

Ha

Ha

Ninguém está imune.

Abandono

Sei que esse blog anda bem abandonado. Na verdade acho que eu não cheguei a encontrar o tom deste blog. Na verdade eu ando escrevendo muito pouco livremente. Ou seja, tudo o que escrevo ultimamente é trabalho. Isso não chega a ser mal.

Estamos tutti bene. Logo voltarei a postar com mais frequência.

Finalmente tenho internet em casa!

E para inaugurar algo lindinho: a última cena de JUNO

Montevideo, sei lá, mil coisas

Andar de bicicleta em Montevideo é uma delícia. Não tem ciclovia e nem rampas para subir as calçadas. O ruído das baldosas partidas que se deslocam quando a roda da bicicleta passa se mistura com o ruído mântrico da minha bicicleta que tem história e paralamas de metal que parecem reclamar cada vez que eu coloco a bicicleta em funcionamento. Mas tudo isso de alguma forma tem o sabor que eu gosto de Montevideo. Uma cidade onde ainda se encontram reparadores de sapato e roupas em cada esquina, onde ainda existe comércio de bairro, onde em vez de débito automático há a figura de um cobrador. Isso mesmo, uma pessoa que passa na porta da sua casa para receber o dinheiro do condomínio, ou a mensalidade do clube. E é aqui onde estou. No segundo andar, mas com muito céu aberto. E essa sensação de “parada no tempo” é o que permite as pessoas terem tempo de parar, conversar, sem tanto medo e tanta desconfiança.

Há muitas grades e muitas fechaduras na porta. Por que? Porque a violência aqui também está parada no tempo. Aqui ainda é do tempo em que o ladrão entrava em casa para roubar coisas quando a casa estava vazia. Essa resignação carioca de que se alguém tiver que entrar na sua casa vai ser com a pistola na cabeça , aqui nem passa pela cabeça . E isso porque os tempos mudaram.

Realmente há muita gente reciclando lixo. Muita gente que vive do lixo. E talvez seja aí onde se percebe mais a pobreza .

E cada dia vou conhecendo um vizinho novo, no corredor, e todos estão a las órdenes. E foi a dona da loja de móveis usados que nos apresentou Julio. Julio é o melhor vizinho que alguém pode ter. É um sujeito faz tudo, que poderia perfeitamente trabalhar naqueles reality show de reforma de casa. Mi Casa es Tu Casa rolando e o Julio resolvendo desde a parte elétrica até a sanitária. Bom, aqui ele cortou um pedaço da porta que precisava para ter a ventilação necessária para instalar o gás. E eu, tão acostumada com o jeitinho brasileiro de “ah, madame, não sei não….tirar essa porta…hmmmm” com aquela cara de dúvida para valorizar o trabalho…quase dei um beijo na boca de Julio quando disse que era mole e em 5 minutos resolveu uma questao que se arrastava há dias em telefonemas de pessoas buscando alguém que pudesse fazer isso. Enfim, tá com Julio, tá com Deus. Hehehe

E não sei se dá para descrever a alegria de ver o seu filho chegando na escola com um sorriso de orelha a orelha e nem olhando pra você quando encontra o amiguinho também com sorriso de orelha a orelha porque vão passar a tarde jogando playstation com direito a dormida. Eu acho muito lindo ver meu filho feliz e independente. Sempre quis assim. Ver ele livre indo e vindo, com a certeza e a segurança de que estamos juntos.

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