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Outro mundo é possível

“Mamiiiiiiiii! Já lavei e sequei o calconcillooooo!” E me entregou todo orgulhoso a sua cueca limpinha.

Eu me derreti. É isso mesmo. O meu filho, além de inteligente, simpático, gente boa pra caramba, engraçado, carinhoso e esperto, ainda lava a própria cueca. Isso aí. Outro mundo é possível.

Drink and Dial

Que atire a primeira pedra quem nunca tomou umas a mais e passou a mão no telefone, no celular, email, msn ou similar, sujeita a uma ressaca dupla no dia seguinte. Com o aumento da variedade de formas de comunicação, cada vez mais instantâneas e acessíveis as possibilidades das bêbadas ocasionais meterem esse pé na jaca é ainda maior. O mundo está cada dia mais perigoso, já sabemos.

O alvo normalmente são aqueles ex mal resolvidos, ou “peguetes”, só para criar uma categoria para aquelas relações amorfas. Algumas ligações dessas bêbadas trazem à tona questões transcendentais como : o que é que ela tem que eu não tenho? ou por que nós terminamos mesmo? No caso dos ex até que o estrago não é tão grande. Já passou mesmo. No final das contas acaba sendo mais uma chutada em cachorro morto. No caso daquelas relações em que há, digamos, proximidade física e quase nenhuma intimidade, fica um pouco mais complicado. De repente todo o tempo você está agindo como uma boa mulher pós moderna bem resolvida, que não acredita em príncipe encantado e também não se ilude nem se chateia tanto se o sujeito liga ou não liga. Você é a reencarnação da sobrinha do dalai lama, calma, centrada, deixndo tudo fluir. Tudo isso desaba com aquele telefonema de voz arrastada com declarações sinceras e questionamentos que não têm lugar naquela história onde ninguém entrou com o coração. Inclusive já me questionei se são piores as ligações – que a memória seletiva se encarrega de deletar – ou torpedos que ficam gravados e podem ser lidos à luz de toda sobriedade.

Mas enfim, como já dizia Cartola, o mundo é um moinho. E hoje eu fui acordada às 6 da manhã por um telefonema com voz arrastada falando em portunhol.

Ha

Ha

Ha

Ninguém está imune.

Abandono

Sei que esse blog anda bem abandonado. Na verdade acho que eu não cheguei a encontrar o tom deste blog. Na verdade eu ando escrevendo muito pouco livremente. Ou seja, tudo o que escrevo ultimamente é trabalho. Isso não chega a ser mal.

Estamos tutti bene. Logo voltarei a postar com mais frequência.

Finalmente tenho internet em casa!

E para inaugurar algo lindinho: a última cena de JUNO

Montevideo, sei lá, mil coisas

Andar de bicicleta em Montevideo é uma delícia. Não tem ciclovia e nem rampas para subir as calçadas. O ruído das baldosas partidas que se deslocam quando a roda da bicicleta passa se mistura com o ruído mântrico da minha bicicleta que tem história e paralamas de metal que parecem reclamar cada vez que eu coloco a bicicleta em funcionamento. Mas tudo isso de alguma forma tem o sabor que eu gosto de Montevideo. Uma cidade onde ainda se encontram reparadores de sapato e roupas em cada esquina, onde ainda existe comércio de bairro, onde em vez de débito automático há a figura de um cobrador. Isso mesmo, uma pessoa que passa na porta da sua casa para receber o dinheiro do condomínio, ou a mensalidade do clube. E é aqui onde estou. No segundo andar, mas com muito céu aberto. E essa sensação de “parada no tempo” é o que permite as pessoas terem tempo de parar, conversar, sem tanto medo e tanta desconfiança.

Há muitas grades e muitas fechaduras na porta. Por que? Porque a violência aqui também está parada no tempo. Aqui ainda é do tempo em que o ladrão entrava em casa para roubar coisas quando a casa estava vazia. Essa resignação carioca de que se alguém tiver que entrar na sua casa vai ser com a pistola na cabeça , aqui nem passa pela cabeça . E isso porque os tempos mudaram.

Realmente há muita gente reciclando lixo. Muita gente que vive do lixo. E talvez seja aí onde se percebe mais a pobreza .

E cada dia vou conhecendo um vizinho novo, no corredor, e todos estão a las órdenes. E foi a dona da loja de móveis usados que nos apresentou Julio. Julio é o melhor vizinho que alguém pode ter. É um sujeito faz tudo, que poderia perfeitamente trabalhar naqueles reality show de reforma de casa. Mi Casa es Tu Casa rolando e o Julio resolvendo desde a parte elétrica até a sanitária. Bom, aqui ele cortou um pedaço da porta que precisava para ter a ventilação necessária para instalar o gás. E eu, tão acostumada com o jeitinho brasileiro de “ah, madame, não sei não….tirar essa porta…hmmmm” com aquela cara de dúvida para valorizar o trabalho…quase dei um beijo na boca de Julio quando disse que era mole e em 5 minutos resolveu uma questao que se arrastava há dias em telefonemas de pessoas buscando alguém que pudesse fazer isso. Enfim, tá com Julio, tá com Deus. Hehehe

E não sei se dá para descrever a alegria de ver o seu filho chegando na escola com um sorriso de orelha a orelha e nem olhando pra você quando encontra o amiguinho também com sorriso de orelha a orelha porque vão passar a tarde jogando playstation com direito a dormida. Eu acho muito lindo ver meu filho feliz e independente. Sempre quis assim. Ver ele livre indo e vindo, com a certeza e a segurança de que estamos juntos.

Cabelo

Um cabelo. Ele estava ali preso no chuveiro. Era mais curto e mais ondulado do que os meus fios que normalmente habitavam aquele ambiente. Eu soube que era dele. Ou quis saber assim. E lembrei daqueles seriados americanos de perícia criminal ou mesmo do já ancião Mc Gyver. Tudo que um simples fio de cabelo pode conter. E minha meditação do banho foi sobre os vestígios que a gente deixa e guarda. E eu não quis demover aquele fio dali porque de alguma maneira era um vestígio concreto de algo tão fugaz e intenso ao mesmo tempo. E lembrei de como eu, do alto dos meus 16 anos achava entender o personagem da Insustentável leveza do ser descrevendo sua fascinação com as relações sexuais. Cada mundo e cada canto que ele descobria fazendo sexo quase que compulsivamente com uma quantidade incrível de mulheres. Eu achava poder entender na teoria. Talvez fosse simplesmente bem escrito. Mas, de alguma forma, mesmo sem ter tido nunca o desprendimento ou talvez egocentrismo dele para empreender tal busca, acho que há algo muito bonito nos encontros sexuais casuais.

E é claro que ao manter aquele fio de cabelo em seu lugar me mostrou, não sem um certo enfado, que há uma pontinha romântica em tudo isso. Pensei que por mais que eu quisesse ou me esforçasse esta relação estava fadada a não passar disso. Sim, essa relação com o fio de cabelo, ou melhor, seu dono. E qual o mal disso? Nenhum. Mas às vezes eu mesma custo a acreditar que eu ande tão descrente das relações de “casal” como ultimamente. Não digo isso com nenhuma amargura (bom, alguma há de haver, com certeza). Me surpreendo como ainda é difícil se relacionar com o sexo (oposto??) de forma divertida, lúdica sem cair em romanticismos baratos.

E, não há dúvida de que quanto mais misturadas as influências da igreja católica, mais fácil fica isso. Sem querer lavrar nenhuma teoria, vindo da Espanha, nossas misturas sulamericanas são um bálsamo nestes assuntos. E ainda assim. E eu ainda assim, descrente, solta, leve,liberada, de repente olhei para um fio de cabelo no chuveiro e pensei : ahhh. E voltei a rir porque se tem algo bom da idade é a gente ir aceitando as incongruências, as incoerências de nós mesmos e nossos caminhos. E depois bateu um vento. E aquele cabelo saiu voando pela janelinha do banheiro, perdido na pontinha de azul que eu podia ver.

eu num comercial de margarina

Eu estava lá, sentada em meio a varios pais e mães com suas câmeras em punho. E meu filho vestido com o uniforme tão lindo e tão pulcro, nada condizente com o caos anterior a nossa chegada ao colégio. Ninguém diria que tomamos banho de cuia porque a água quente não funciona. Ninguém diria que meu armário é uma mala e que a chuva lá fora é um agravante insuportável quando se descobre que há xixi na cama. E quando se depende de todo mundo para poder alugar um apartamento e ter um lugar para morar com um pouco de paz de espírito, o xixi sem mira e a cueca que tem que ser trocada na hora que o pai tá chegando embaixo em cima da hora parecem ser a gota d´água que vai te desesperar. Mas não. De repente eu estou sentada no auditório do colégio, chorando lágrimas bobas quando escuto as meninas do coral cantarem em alemão. Chorei achando que meu filho, que estava sentado em outro lugar, estaria gostando. Porque ele é assim, talvez efeito da exposição a muitos filmes disney com canções indicadas ao oscar, ele adora uma música mela cueca aguda.

E lá estava eu, como aquela mãe que chorava pelo seu filho estar começando a vida escolar no colégio que corresponde à elite uruguaia. Talvez ela chorasse por outra razão. Mas ali, no comercial de margarina, éramos iguais. E meu filho era o mais lindo, claro.

juno

JUNO é um lindo filme. Gostei muito de como uma gravidez na adolescência pode não ser melodramática e muito esclarecedora. Tem uma hora em que o pai pergunta o que ela estava fazendo e essa menina de 16 anos, grávida do melhor amigo e envolvida na crise do casal que vai adotar o bebê responde displicentemente: “estive lidando com coisas que estão muito além da minha maturidade”. E é essa lucidez fresca e destemida dessa pessoa descobrindo o mundo e a si mesma que faz de Juno uma personagem tão cativante. E é nesse amadurecimento no tranco que ela descobre também o amor. Lindo, leve e solto. E a trilha sonora é uma delícia.

E eu um dia estou em um festa com luz negra e pessoas pintadas com tinta fosforescente se entorpecendo de diversas maneiras e no outro comprando material e uniforme escolar.

desapego versão 2.0

Eu estava em frente à Cinemateca e o céu era aquele azul profundo do fim da tarde. Um jazz com bandoneón, tangueado, lindo de morrer e todas as caras eram desconhecidas, menos a da Vero que estava do meu lado, mas em pé porque ela se recusa a ver um show sentada. Admiro sua devoção à música, mas meu corpo preguiçoso busca sempre um chão. Deve haver uma explicação fengshuística para isso. Equilíbrio de elementos, sei lá.

E aquele jazz al aire libre era também pra comemorar que encontramos um lar! E uma sensação que se confirma de que estou onde eu quero estar, ainda que pudesse estar igualmente bem em outros lugares. Se não fosse assim eu não seria geminiana, do ar, e não precisaria sempre sentar no chão.

E foi justamente a visão do chão de madeira amplo com a árvore enquadrada na janela que fez a gente querer morar ali na hora. E tenho certeza de que seremos felizes no nosso novo lar.

E como na minha vida eu costumo planejar as coisas tortas e elas saem retas, matriculamos o Santiago no colégio alemão. Eu, que queria ele numa escola alternativa, fazendo yoga e meditação, tive que me render ao fato de que o que eu considero ser uma boa escola, não necessariamente é uma boa escola PARA ele.

Fiquei dois dias super triste porque é uma ironia eu morar em Montevideo e o Santi não ir à escola que eu acho incrível, que sempre tive como modelo, porque eu sou da era de aquário, nunca escondi isso de ninguém. Mas, filhos são grandes mestres. E me lembrei que me prometi que tentaria aprender com o que me pareceu ser a lição do meu parto: que o que eu acho que é o melhor pra ele nem sempre será assim. E tento manter-me aberta a isso, como um mantra diário. É muito difícil desapegar de determinadas coisas, idéias, mas…wim wenders e aprendenders.

Pouco a pouco começo a me familiarizar com o mapa da cidade que vai se compondo mentalmente. É muito bom estar descobrindo essa cidade sem nenhuma pressa.

Bom agouro

Dois meses no Rio com um carnaval aquático no meio quase me fizeram esquecer que minha casa era minha mala. E, com uma leve sensação de ir contra o vento, de repente estava pedindo para a atendente da Gol liberar o excesso de peso (das malas, o meu só com dieta e exercício mesmo) porque eu estava de mudança.

- Para o Uruguai?

-É, Montevideo.

- Lá é melhor que aqui?

- Cada lugar tem suas coisas, é diferente. (tentando ser antropologicamente correta)

Ela não se convenceu muito e também não liberou muito, mas tudo bem. Como há muito não ocorria, foi um vôo praticamente sem atrasos (20 minutos nem se conta). E todas as malas chegaram. E minha coluna sobreviveu. E o Santi já chegou dizendo para o pai que ele iria carregar a Godzilla ( aquela malinha sutil de 35 quilos ). Haha! Isso aí, ponto para as meninas!!! E feminismo é o cacete!

É engraçado chegar para ficar aqui. Já vim muitas vezes, mas nunca para ficar.

E quando me vi no alto da colina na rambla de pocitos vendo o show dos Buenos Muchachos , que não é exatamente o meu estilo de música, mas é legal, cercada de buena onda meio hippie meio rockeira, entre cuias de mate e botellas de cerveza de litro, o sol de pondo 9 da noite e aquela baía de águas prateadas em frente pensei: que bom agouro!

E um cara que falava um português paraibano me confirmou que dá para usar bicicleta aqui como meio de transporte, então vi que tá tudo no caminho certo.

Além disso ainda encontrei um cantinho que pega wifi ( salve textom!). Tentarei atualizar com freqüência.

By the way, porque esse blog também é de utilidade pública: o Brasil e o Uruguai assinaram um tratado de reciprocidade de residência, de modess que qualquer brasileiro ou uruguaio que queira residir no outro país e não tenha antecedentes criminais pode fazê-lo. Parece ser bastante simples.Depois eu conto como é esse processo.

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